O paradigma "Speedy" de EducaçãoSusie de Araujo Campos Alcoba
Nem sempre o mundo das crianças e jovens foi perturbado pela presença da escola. A escola apareceu bem tarde na história humana, somente depois que a escrita foi inventada.
Nas culturas sem escrita não há um espaço nem um tempo separado para aprender, tampouco existe a atividade de estudar. Mas é importante que os saberes adquiridos, as experiências que se revelaram úteis à sobrevivência sejam transmitidas às novas gerações, uma vez que o ser humano não tem, como os animais, uma memória inscrita em seu DNA com os comportamentos necessários à preservação da vida. Mas tudo o que se aprende nas sociedades orais é o que se vive, o que se imita, o que se faz junto com os outros, o que se experimenta nos rituais coletivos, o que se ouve repetir incansavelmente nos mitos – narrativas que condensam os feitos dos ancestrais, os saberes e valores do grupo.
A economia do mito assimila os acontecimentos singulares aos grandes esquemas já familiares à coletividade, para não sobrecarregar a memória com detalhes desnecessários. É que a memória das culturas ágrafas é encarnada nas pessoas, e depende totalmente da deficiente capacidade de recordar do cérebro humano. Por isso esses povos utilizam a forma poética nas narrativas, com sua cadência rítmica, repetições, refrões e metáforas, cuja eficácia é ampliada pela associação com a música e a dança.
Você se lembrou de alguma aula de cursinho? Técnicas milenares...! Na lógica dos vestibulares, parece que até hoje só podemos contar com o suporte humano para a conservação da memória comunitária e temos que carregar tudo em nossas mentes.
No entanto, nas culturas oralistas, ao contrário do que se passa na cultura do vestibular, não há espaço para aquilo que não tem laços com os problemas da vida dos membros do grupo. As representações na narrativa são ricamente conectadas entre si, mantendo uma relação de causa e efeito, e estão sempre ligadas a situações ou conhecimentos concretos, carregados de sentido afetivo para eles. Esta conectividade entre os conhecimentos e esta ligação deles com o contexto do homem oralista, não somente eram condições que favoreciam a memorização, mas também eram excelentes condições de aprendizagem. Quanto mais conexões uma informação encontra em nosso cérebro, melhores são as chances de compreendê-la. Quanto mais ela estiver ligada a nossa vida, mais ela mobiliza a nossa energia cognitiva para aprender.
Parece que a escola que conhecemos se esqueceu desta ancestral sabedoria pedagógica. Mas por que surgiram estes espaços especiais para aprender, distanciados da vida do dia-a-dia?
Com o aparecimento da escrita, parte da memória coletiva pode fixar-se fora das pessoas. Sua conservação dependia somente da durabilidade dos suportes e não corria mais o risco de ser deformada pela memória humana.
Foi o texto que atraiu as pessoas dos seus afazeres cotidianos para um espaço em particular, onde separava-se um determinado tempo para o estudo individual, para debater o significado do texto com outros interessados ou para ouvir uma autoridade no texto em questão.
O problema que o escritor e o leitor da mensagem podiam estar distantes no tempo e no espaço, não pertenciam mais ao mesmo contexto. Surge, então, a desconfiança de que o texto possa ser mal compreendido e por isso o intérprete entra em cena, alguém que conhece de modo especial o autor do texto e/ou o seu contexto de origem.
Para evitar a multiplicidade de interpretações, procurava-se escrever textos que pudessem conter uma verdade que pudesse existir independentemente do seu autor e do contexto de sua produção, que fosse objetiva, permanente, universal. A poesia da tradição oral dá lugar à prosa e o conteúdo teórico ganha a preferência sobre o narrativo.
É sobre estes critérios da cultura escrita que a escola se organizou, valorizando o conhecimento objetivo das coisas, as verdades absolutas e independentes de qualquer contexto. O sucesso do aluno depende de saber dar a resposta que o seu professor pensa ser a correta. Não lhe cabe encontrar outros sentidos possíveis no texto que não seja aquele que o autor quis dar, obviamente segundo a versão do intérprete-professor. Nem pode tentar encontrar outra maneira de resolver um problema, muito menos levantar qualquer hipótese sobre um acontecimento histórico que não seja os que estão cristalizados nos livros ou que foram ditados pelo professor. Nesta escola não é preciso refletir, não é possível recriar coisa alguma. Tudo o que se pede do aluno é que reproduza. Embora se espere que ele use suas próprias palavras e faça uma síntese das idéias de alguns autores na elaboração de um trabalho, quem pode culpá-los pelas cópias deslavadas que fazem? Se são proibidos de fazerem e pensarem por si mesmos o tempo todo, por que o fariam nessa situação?
Este é o paradigma educacional refletido em recente propaganda do Speedy, em que uma criança busca a solução do seu dever de casa na Internet, imprime o que encontrou tal e qual e leva para a professora um calhamaço enciclopédico sobre animais mamíferos. Com certeza essa criança, se ela tivesse trabalhado realmente sozinha, teria aperfeiçoado tremendamente suas habilidades para localizar e navegar por tantas páginas e a sua competência para lidar com uma impressora (tarefa heróica!).
Mas, e se a tarefa fosse comparar a aparência de vários animais de hábitos diurnos e noturnos para verificar se há algum tipo de padrão que os diferencie e refletir no por quê das diferenças? Isto obrigaria o aprendiz a empreender observações e a seleção pertinente de partes do conteúdo, para depois refletir e criar hipóteses sobre as necessidades de camuflagem destes dois grupos. Melhor ainda seria se cada aluno estivesse buscando respostas para as suas próprias perguntas, suas curiosidades sobre o tema.
O paradigma da instrução ainda vigente em grande parte de nossas escolas mata toda a curiosidade. Sem incentivar o hábito de perguntar e duvidar, formamos jovens sem nenhum pensamento crítico. A situação se agrava pela unilateralidade dos meios de comunicação, que aprofundam a crise da passividade na recepção da informação.
Sosseguem professores, não é a Internet que veio estragar tudo e instituir a cultura fácil do copiar-colar. Esta é uma prática bem antiga. Só que agora é menos laboriosa. Do mesmo jeito que faço a cópia de um texto no computador sem ter consciência do que estou escrevendo, copio-o à mão sem prestar a menor atenção. Copiar por copiar, fazê-lo com o mouse significa uma preciosa economia do tempo que se rouba aos nossos jovens e crianças, com tantas coisas mais alegres e interessantes para viver.
É a organização do trabalho cotidiano do professor em sala de aula, as relações estabelecidas, o espaço aberto às propostas do aluno, à polissemia, ao pensamento autônomo, à recriação, que o levará a mergulhar nos textos em busca de respostas para perguntas que lhe são interessantes e constituem verdadeiros desafios.
Não é da natureza da Internet aprofundar a crise da preguiçosa passividade estudantil. Pelo contrário, sua história e natureza criticam e questionam o padrão da transmissão unilateral da informação dos meios de comunicação de massa e da escola, que levaram a esta situação.
O computador pessoal nasceu da bricolagem eletrônica de grupos de jovens que, à margem do sistema no final dos anos 60 e anos 70, eram guiados pelo ideal robinwoodiano de roubar a tecnologia do governo e das grandes corporações, para que todos tivessem acesso a ela. Assim, colocaram nele tudo que era necessário para que pessoas comuns pudessem utilizá-lo sem conhecer linguagens de programação, sem precisar digitar códigos.
Estes guerreiros tecnológicos queriam a democratização da informação, a descentralização do poder sobre ela. Então inventaram a Internet. Ela nasceu para ser um meio de comunicação bilateral, onde todos podem ser emissores e receptores de informações. Ela é um espaço para a autoria, a produção de conhecimentos. É um espaço de diálogo, de interatividade. Sua arquitetura em rede, não permite um centro de irradiação, todos estão ligados a todos.
Este não é mais um espaço para copiar coisas, para encontrar tudo pronto. Copiar de quem, qual a fonte confiável diante de tanta diversidade? Este não é mais um espaço para espiar, é um espaço para ocupar. O ciberespaço é aquele que engendra para todo cidadão, um espaço de atuação política. Diante dos problemas cruciais que o mundo enfrenta, que dizem respeito à devastação do planeta e aos problemas políticos, sociais e econômicos que, de agora em diante, têm sempre alcance global, todos os homens tornam-se solidários nas responsabilidades e conseqüências do que se faz em cada parte do mundo.
O ciberespaço é o espaço em que a escola pode recuperar as boas qualidades das culturas orais para aprender. A Internet é o espaço para a cidadania planetária, que professores e alunos também precisam ocupar. A escola precisa se voltar para a comunidade local, e também para a comunidade planetária, para tratar dos problemas ligados à vida.
Atualmente, o conhecimento humano se produz, se multiplica, e se difunde rapidamente. Não se acredita mais na apreensão objetiva do real, portanto, não se busca mais as verdades absolutas, permanentes. A sociedade da informação é marcada pela mudança e pela velocidade com que elas se sucedem, inclusive no campo do conhecimento.
Não é mais tempo de a escola se preocupar com a acumulação de conhecimentos na mente de seus alunos, talvez obsoletos em pouco tempo. É preciso formar mentes que avaliem e articulem bem as informações de que dispõem, para produzir os conhecimentos pertinentes e eficazes (não mais os permanentes e verdadeiros) em uma dada situação ou problema. Isto é que o mercado de trabalho exige, é isto que a vida exige.
O mundo mudou, a paradigma comunicacional mudou, a relação com o conhecimento mudou. E a escola, e o professor, e o aluno, em que mundo vivem?
Originalmente publicado no site Estudos Turísticos, 2003
www.alcoba.com.br