Todo conhecimento que produzimos tem uma história que se entrelaça à do sujeito que o produz. Minhas opções de estudo e pesquisa estão enraizadas em minha história de vida e são influenciadas pelas experiências por que passei.
Minha vida escolar teve um papel fundamental nos caminhos que percorri. A escola atraía-me, porque eu gostava de aprender coisas novas, mas também me provocou muitos conflitos. Ela me fazia vivenciar a diferença interpessoal de uma forma como eu nunca experimentara fora dela. Lá funcionavam certos dispositivos que colocavam as dificuldades e facilidades de cada um em evidência, com considerável impacto sobre a auto-imagem e os subseqüentes fracassos e sucessos escolares dos alunos. Era só observar, por exemplo, a expressão facial orgulhosa ou constrangida dos colegas e os olhares e gracejos que escapavam, quando a professora entregava as provas dizendo as notas de cada um em voz alta. Em geral, saía-se bem quem tinha boa memória para reproduzir informações e algoritmos, ainda que não compreendesse o sentido do que fazia. Já os que precisavam deste entendimento eram penalizados.
Meu ponto fraco estava nas aulas de Educação Física. Já adulta, descobri que tinha uma alteração na coluna, que prejudicava a minha coordenação motora. Por isso, nunca me dei muito bem com bolas, que sempre andavam depressa demais, e meu corpo não se desviava delas rápido o suficiente nos jogos de queimada, nem dava conta de manejá-las convenientemente nesta e em outras brincadeiras. Mas era só o que se fazia naquelas aulas. Os jogos eram momentos importantes de socialização, mas a exclusividade dada a atividades muito competitivas desencadeava atitudes explícitas de exclusão dos menos habilidosos.
Graças a essas vivências, tenho sido atraída por temas que me levam a refletir sobre como a exclusão na escola é gerada pelos mecanismos que nela são colocados em ação e sobre a escola como produtora de identidades - o que inclui o senso de capacidade ou incapacidade que desenvolvemos - por meio de um currículo oculto em suas práticas.
A partir da adolescência, uma hipertonia que desenvolvi, ainda por causa da coluna, tornou-se mais aparente e passei a viver situações em que as pessoas me atribuíam incapacidades por mim desconhecidas, reagindo conforme a interpretação que acrescentavam ao que viam. Assim, aprendi como nossas deficiências, por menos importantes que sejam, são, em grande parte, socialmente forjadas.
Neste trabalho, voltei-me para a educação superior, tendo em vista que processos como os que experimentei podem se repetir na universidade, dependendo do modo como os professores consideram seus alunos. Trouxe já comigo a crença no papel inexorável dos outros naquilo que nos constitui e conhecemos de nós mesmos. Lancei-me a este trabalho, com a certeza de que os problemas com que os estudantes com deficiência se deparam na universidade dependem, em sua maior parte, da cultura que vão encontrar e da interação com os seus interlocutores.
Seguindo a metáfora da tecelagem para apresentar a estrutura desta tese, essa experiência pessoal é o primeiro fio a ser fixado na urdideira, um aparelho de duas peças paralelas onde se prendem os fios longitudinais que constituem a urdidura de um tecido, formando a base sobre a qual se cruzam os fios transversais da trama.
Para preparar A URDIDURA deste estudo, busquei alguns fios da história recente da inclusão social e escolar das pessoas com deficiência no Brasil, com seus desdobramentos na educação superior. Recorri também às recentes pesquisas e trabalhos sobre a inclusão destas pessoas nas universidades brasileiras, para compor o contexto mais amplo, histórico e acadêmico, em que essa pesquisa se insere. Estendi ainda, na urdideira, os fios que desenham os motivos que levaram a este trabalho. Eles estão dispostos em uma breve descrição de como se vem construindo a inclusão social na Universidade Estadual de Campinas - Unicamp e, também, em um relato das circunstâncias que deram origem ao presente trabalho, gerando as indagações que buscou responder.
Tendo os primeiros fios posicionados, apresento o MODO DE TECER, com a seleção das meadas necessárias para a trama: o modelo da pesquisa, a amostra, o instrumento para a coleta dos dados, assim como os planos de como cruzar os fios na urdidura para dar forma ao tecido, justificando as escolhas realizadas.
Gosto de me aproximar de um objeto de estudo a partir de sua história, pois muitas das questões com que nos deparamos podem ter sentidos enraizados no passado, que são importantes para compreendermos os desafios do presente. Assim, iniciei A TRAMA com a história da evolução dos direitos humanos, da idéia de igualdade entre as pessoas e, mais especificamente, de como as pessoas com deficiência foram consideradas ao longo do tempo.
Este caminho pareceu-me interessante, por perceber que, apesar do que podemos considerar uma evolução progressiva das idéias sobre os direitos fundamentais de todas as pessoas, os conflitos em torno deles parecem sempre retornar, de um modo ou de outro, segundo os interesses em jogo e a distribuição do poder. Acreditei que percorrer estes movimentos seria fecundo para iluminar alguns processos e mecanismos que ainda acompanham a luta das pessoas com deficiência para ter acesso aos mesmos bens que o restante da sociedade. Estes FIOS HISTÓRICOS se entreteceram com os FIOS INSTITUCIONAIS, que trazem os dados colhidos na Unicamp, para realçar o desenho traçado por estes. Os nós que fazem o acabamento desta trama foram dados em ARREMATE.
No interior dos capítulos assim tramados, recorri à metáfora do ninho, para abordar o conteúdo do texto. Também o ninho pode ser urdido em materiais diversos, permitindo a retomada de imagens da atividade de tecer. O ninho é lugar de recepção, cuidado e maturação para a vida das novas gerações, sendo preparado para acolher filhotes de determinada espécie. Por isso, costuma ser protegido contra os estranhos que podem ameaçar a prole.
A figura do ninho foi usada para representar a sociedade em geral, nos Fios Históricos, e à comunidade acadêmica da Unicamp, nos Fios Institucionais, procurando determinar em que medida as pessoas com deficiência foram e são tratadas como estranhas ou que parte do ninho lhes tem sido reservada.
Usei as expressões Estranhos ao ninho, Estranhos no ninho e Por um lugar no Ninho para intitular períodos históricos, nos quais as atitudes predominantes para com as pessoas com deficiência eram marcadas pela eliminação e afastamento, pela integração segregada e pela luta por inclusão plena, respectivamente. Sob o título A Urdidura do ninho, tratei de algumas características da Unicamp que podem afetar o percurso de seus alunos com deficiência; em Cuco no ninho, exploro situações que ainda fazem do aluno que tem deficiência um estranho na comunidade universitária; e, finalmente, em Inclusão no ninho, é discutido o problema da diferenciação que algumas deficiências demandam frente a uma visão de igualdade, mérito e justiça.
O estudo foi concebido em formato hipertextual, para estreitar as interligações entre as diversas idéias tramadas pelo texto. Sua leitura também pode ser feita na forma impressa sem causar prejuízos ao entendimento do trabalho. Sugiro, contudo, que o leitor aprecie esta tese no hipertexto em que foi urdida, para perceber as conexões da trama em sua totalidade.