As discussões sobre as desigualdades no ensino superior se desenvolveram durante o processo de expansão deste nível de ensino, a partir dos anos 60, centrando-se nas diferenças de oportunidades de acesso de certos grupos sociais. Entre as causas dessas desigualdades, as questões ligadas à seletividade do vestibular ganharam a ênfase principal, em um primeiro momento. Logo se iniciou também a discussão em torno de uma seletividade anterior, que interfere na escolha de uma carreira, de acordo com uma hierarquia de prestígio maior ou menor entre os cursos, que implica em uma competitividade mais ou menos intensa entre os candidatos. Aqueles que se sentem menos preparados para enfrentar a competição nos cursos de maior prestígio escolhem as carreiras menos competitivas, que costumam ser as que proporcionarão uma renda menor ao futuro profissional.
Agora o debate começou a dirigir o seu foco para as desigualdades que também afetam a permanência dos alunos nos cursos (MOEHLECKE, 2004). Com a entrada de alunos no ensino superior provenientes de setores sociais desfavorecidos, é importante que se comece a desvelar as diferenciações que podem ocorrer dentro de cada curso e continuam a colocar esses grupos de alunos em desvantagem, uma vez que ameaçam a sua permanência no curso. Um estudo de Villas Boas (2001, apud MOEHLECKE, 2004) mostrou que essas diferenciações podem se estabelecer a partir de possibilidades diversificadas de aproveitamento do curso e das experiências que o ambiente acadêmico pode oferecer.
Estas observações são especialmente importantes ao considerarmos a população universitária com deficiência, que talvez seja o menor grupo dentre as minorias que têm adentrado à universidade nos últimos tempos. Este é o grupo que certamente encontra as maiores dificuldades para usufruir da ampla gama de experiências que o ambiente universitário pode proporcionar e de ter acesso pleno aos conhecimentos disponibilizados.
A nossa Constituição garante a todos igualdade de condições no acesso à educação e de permanência na escola, e a legislação que trata de pessoas com deficiência esclarece que as instituições de ensino devem criar condições para que elas tenham as mesmas oportunidades que os demais alunos no acesso e para concluir o curso com sucesso, em qualquer nível de ensino.
O processo seletivo, com toda a sua visibilidade, parece estar mais regulado e, na Unicamp, já adapta as condições para que todos os candidatos com alguma dificuldade específica possam fazer a prova do vestibular em igualdade de condições com os demais. Mas uma vez ultrapassada a etapa do acesso, o que a universidade oferece aos alunos com deficiência para favorecer a sua permanência no curso, em suas respectivas unidades? Quando estes estudantes começam a penetrar nesse território, têm seus direitos, de fato, reconhecidos pela comunidade acadêmica?
Sendo a universidade um dos espaços sociais mais importantes para a produção de conhecimento e desenvolvimento do pensamento crítico, seria de se esperar que estivesse imbuída de uma nova visão de justiça social e igualdade de direitos. De fato, a inserção e responsabilidade sociais, assim como o respeito aos direitos fundamentais das pessoas, estão entre os princípios que a universidade estabeleceu formalmente, em seu planejamento geral (UNICAMP, 2003), para orientar o cumprimento de sua missão. Podemos ver que estes princípios se traduzem em diferentes frentes de ação para a inclusão de novos grupos sociais na universidade. Como estas preocupações têm contemplado a inclusão das pessoas com deficiência?
Ainda que encontremos algumas unidades de ensino que tenham resolvido a questão da sua acessibilidade física, que outras barreiras os alunos que possuem deficiência podem encontrar, especialmente nos processos bem menos visíveis da vida acadêmica, nas salas de aula e outros espaços de ensino e estudo?
As discussões que se instalaram em razão das ações afirmativas para aumentar a presença de negros na universidade levantaram a objeção de que tais ações feriam o princípio constitucional da igualdade. Eles estariam usufruindo um privilégio em detrimento de outras pessoas, o que seria injusto. Teriam direito a uma vaga na universidade, apresentando resultados menores que outros, excluídos apesar de terem mais mérito. Os alunos com deficiência podem necessitar de equipamentos em sala de aula, mais tempo para fazer a prova ou mesmo algumas alterações curriculares. Isto poderia ser considerado um privilégio descabido? Como os professores da Unicamp consideram as diferenças dos seus alunos, diante da igualdade de direitos? Que estratégias utilizam ou pensam que poderiam utilizar para lidar com essas diferenças, especialmente as dos alunos com deficiência? Estão dispostos a adotar uma postura que leve a diferenciações capazes de compensar as desvantagens que as pessoas com deficiência sofrem para fazer um curso superior?
Se as pessoas com deficiência têm algumas habilidades reduzidas ou suprimidas para fazer algumas coisas da mesma forma que os demais, em que casos serão consideradas ou não capazes para fazer certos cursos? Se um aluno como Jesuíno, passasse no curso de Medicina da Unicamp, teria que enfrentar a mesma resistência que este estudante encontrou na década de 80? Outros alunos, como ele, encontrariam as mesmas dificuldades em outros cursos? Como a visão que os professores têm de currículo, de avaliação e até da função da universidade poderiam produzir ou não os mesmo problemas já enfrentados por Jesuíno?
Tendo estas preocupações em vista, escolhi como objetivo deste estudo investigar como professores da Unicamp encaram as possibilidades de acesso e permanência dos alunos com deficiência nos cursos superiores desta instituição, para conhecer quais são as oportunidades que já temos para construir um ambiente inclusivo nesta universidade e o que está sendo um obstáculo à sua concretização.