Quando defini o foco dessa pesquisa e que a desenvolveria com os professores da Unicamp, concluí que o trabalho exigia uma aproximação metodológica de caráter qualitativo, em que os números não têm uma posição central.
Em algumas ocasiões, percebi a importância que se dá ao levantamento do número e localização de alunos ou de trabalhadores com deficiência na Unicamp, para balizar as políticas relativas à sua inclusão. Há momentos em que é preciso, de fato, saber qual é a demanda por determinado recurso, para poder garantir o atendimento de todos os que dele necessitam. Mas se queremos desenvolver, de fato, um ambiente inclusivo para todas as pessoas, como este trabalho propõe, não basta atacar os problemas localmente, colocando, por exemplo, uma rampa na entrada do prédio onde estuda ou trabalha uma pessoa que se utiliza de cadeira de rodas, porque seu acesso não deveria ser limitado somente a este local da instituição. A existência de um quesito de acessibilidade como esse não deveria estar condicionada a um número ou à presença de um tipo de pessoa porque, da forma como a inclusão e a acessibilidade são entendidas hoje, uma rampa atende a uma variedade de necessidades que podem surgir e desaparecer a qualquer momento e deveria estar sempre disponível.
O que deve orientar um projeto de inclusão é o direito de cada um de ter acesso a todos os espaços e a mesma possibilidade que os demais de neles usufruir as experiências acadêmicas e culturais oferecidas. Para que as necessidades locais, variadas e nem sempre previsíveis, possam ser supridas, é preciso que haja, antes de tudo, um correto entendimento daquele direito, para que se garanta a mobilização comunitária em oferecer e buscar soluções, sempre que aquelas necessidades se fizerem presentes.
Assim, como este estudo valorizou especialmente o modo como as pessoas compreendem e reagem aos direitos do aluno com deficiência, contabilizar os dados colhidos durante este estudo não seria de grande relevância, pois ainda que os problemas encontrados sejam mínimos e esparsos, se puserem em risco o direito de um só aluno, eles precisam ser desvelados e discutidos. Mais importante do que saber quantos professores têm esta ou aquela posição é entender o contexto ou as condições estruturais que podem levá-los a pensar ou agir de modo adverso à inserção na universidade de alunos diferentes dos tradicionais, para que se possa pensar em soluções inclusivas.
Isto significa que há valores - relativos à defesa do direito de todos à educação e à igualdade no acesso e nas condições de permanência em todos os níveis de ensino - implicados na condução desta pesquisa, ao contrário do que se acostumou a fazer no paradigma dominante da ciência, que pretende ser neutro, isento de elementos subjetivos do pesquisador.
A ciência moderna apoiou-se essencialmente em métodos quantitativos para garantir a validade do conhecimento a ser obtido, condicionando-a ao rigor das medições e desprezando as qualidades do fenômeno estudado. Além disso, seus métodos operam pela redução da complexidade dos fenômenos, pela divisão dos problemas em partes e pela seleção dos aspectos considerados relevantes. Estes, além de serem passíveis de rigorosa mensuração, devem ser aqueles que podem ser encontrados com regularidade, independentemente do lugar, do tempo e de condições particulares, atendendo, portanto, à aspiração moderna de formular leis universais (SANTOS, B., 2003).
É inegável que sob esses métodos, a ciência fez importantes conquistas, mas, nos últimos anos, a crença no rigor e na suficiência de seus critérios epistemológicos tem sido abalada no próprio campo das ciências naturais, em que primeiro se desenvolveram, provocando um movimento oposto de religação dos conhecimentos, de consideração do contexto em que é produzido e do reconhecimento de que o sujeito que conhece, que antes se cria poder isolar do objeto de estudo, está implicado no conhecimento por ele produzido. No seio das ciências sociais, a insuficiência daqueles métodos logo se tornou evidente e, bem antes, ali já se desenvolviam os métodos qualitativos, na tentativa de recuperar a riqueza e a compreensão perdidas com os métodos anteriores.
A pesquisa qualitativa tem como traços principais o caráter descritivo, a coleta dos dados no ambiente natural dos fenômenos, a consideração dos significados atribuídos pelas pessoas do campo de estudo e ter o pesquisador como instrumento fundamental, que se utiliza do enfoque indutivo, atribuindo sua interpretação aos fatos observados (GODOY, 1995). É um tipo de pesquisa que trata de compreender o significado de comportamentos e situações, ao invés de quantificá-los.
Os estudos qualitativos são, portanto, adequados à exploração e descrição de casos singulares, restritos a um local e tempo determinados, como o que foi empreendido neste trabalho, em que foi estudado especificamente o caso da Unicamp quanto ao problema da inclusão de alunos com deficiência. Nesta pesquisa, foi possível conhecer o que os sujeitos envolvidos pensam sobre os assuntos abordados, que significados conferem a algumas de suas práticas ou o que motiva suas atitudes. Para isto, a pesquisa exigia liberdade na condução da entrevista. A manipulação quantitativa dos dados, ao contrário, levaria a um uso uniforme das perguntas, formuladas para provocarem respostas simples.
Enquanto os estudos quantitativos geralmente são guiados por um plano bem definido desde o início, a pesquisa qualitativa pode ajustar sua direção ao longo de sua execução. Com caráter bem estruturado, a pesquisa quantitativa costuma basear-se em hipóteses previamente indicadas, o que não faz sentido na exploração de uma realidade social complexa e mutante, que provavelmente já não será a mesma no momento da publicação do estudo. O objetivo desta tese não é fixar um conhecimento como verdade passível de verificação a qualquer momento, mas fazer emergir aspectos da situação atual da Unicamp que contribuam para a compreensão de alguns requisitos necessários à construção de uma universidade inclusiva.