Um dos grandes problemas encontrados nos trabalhos de abordagem qualitativa é lidar com o grande volume de dados, normalmente de conteúdo muito rico e denso. À medida que os dados vão se acumulando, uma intrincada rede de informações vai se formando e não é fácil encontrar uma forma adequada de organização desses dados, sem perder de vista uma das mais importantes vantagens da pesquisa qualitativa, que, como lembra André (1983), é a de apreender o caráter multidimensional e a complexidade do objeto de estudo.
Pela natureza do problema, que visava a descoberta das peculiaridades de uma situação local, não convinha trabalhar com quaisquer categorias pré-definidas. Estudos de caso são caracteristicamente abertos e flexíveis (ANDRÉ, 1986) e as possíveis categorias vão se configurando e se modificando ao longo do processo de organização e análise dos dados.
Ao realizar esta etapa do trabalho, uma série de temas foram emergindo e eu me via diante de várias encruzilhadas, de múltiplas possibilidades, diversos caminhos de discussão a partir de um único trecho de entrevista. Comecei a trabalhar com os dados em formato hipertextual, o que me permitia concretizar as múltiplas conexões que me ocorriam, e optei por conservar esta forma de escrita para a apresentação final da tese.
Hipertexto é a designação dada à nova forma de escrita da sociedade informático-midiática, que sugere algo maior do que um texto ou que vai além do texto (RAMAL, 2002). Ele pode ser composto de muitos textos e informações não-textuais que, ao invés de serem justapostos em uma seqüência linear, adquirem uma configuração reticular, uma vez que cada palavra ou imagem pode ligar-se e dar acesso imediato a outro texto ou fragmento específico de um texto. O hipertexto é, assim, um modo multilinear de apresentação de informações, tendo suas partes (nós) ligadas entre si por meio de conexões que chamamos de links.
O matemático e físico Vannevar Bush foi o primeiro a enunciar a idéia do hipertexto, em 1945, no seu artigo As We May Think. Ali, ele acusava justamente a artificialidade da organização das informações em uso na comunidade científica, que é hierárquica e tem cada item classificado sob uma única rubrica. Ele propunha que nos inspirássemos no funcionamento da mente humana, que processa as informações por meio de associações, traçando trilhas que se bifurcam e tecem uma complexa trama de difícil representação em um texto impresso, mais afeito a um tratamento linear e hierárquico (LÉVY, 1993).
Sem dúvida, ao longo da história do texto impresso, desenvolveram-se diversas estratégias que já permitiam o exame rápido do conteúdo e um acesso não linear e seletivo aos textos, como os sumários, índices e remissões. Também tornaram-se possíveis conexões não lineares internas ou externas ao texto, utilizando notas, tabelas, anexos, e referências bibliográficas. A especificidade do hipertexto está na velocidade e facilidade da passagem de um nó a outro, o que permite generalizar e utilizar em toda plenitude o princípio da não-linearidade e fazer dele a norma na construção do texto (LÉVY, 1993; RAMAL, 2002).
Com isto, o hipertexto se torna uma nova tecnologia intelectual, designação utilizada por Lévy (1993) para os suportes que auxiliam o nosso trabalho cognitivo. Como toda tecnologia, as tecnologias intelectuais são fruto de demandas, como as expressas por Vannevar Bush, ao mesmo tempo em que criam novas possibilidades de relação com o conhecimento, com reflexos sobre a organização social. O desenvolvimento da escrita deu impulso às estruturas normativas e permitiu que o saber fosse objetivado, permitindo a constituição do discurso científico, inviabilizado em contextos puramente subjetivos como os que se constituíam nas culturas de comunicação oral (RAMAL, 2002).
A linearidade da escrita impressa está em sintonia com a organização hierárquica e categorizações estanques de que se queixava Bush, da qual a árvore é uma metáfora. Os galhos não podem se comunicar entre si, a menos que o fluxo da informação siga um caminho rigoroso que deve passar sempre pelo tronco, ou ramo principal de onde cada galho deriva. Já o hipertexto se solidariza com outro paradigma de organização, para o qual Gilles Deleuze e Félix Guattari (1995) propuseram uma nova metáfora retirada do reino vegetal: o rizoma, um tipo de caule formado por um emaranhado de milhares de pequenas raízes, que fazem ligação entre pequenos bulbos armazenadores e com o exterior (GALLO, 2000).
A conseqüência imediata da escrita hipertextual para esta tese, além de me auxiliar durante o processo de escrita, foi poder materializar nela ao menos uma parte das múltiplas relações que me ocorriam entre dados e referenciais utilizados e que me impunham a dificuldade de escolher uma única trilha ou obrigariam a retomada de discussões já realizadas em outra parte.
A própria seleção do material colhido nas entrevistas foi influenciada pela forma escolhida para a escrita. Diante da grande quantidade de dados, era difícil encontrar o "fio da meada". Comecei por construir um hipertexto procurando relacionar partes do estudo histórico que já tinha com trechos de entrevista com os quais eu via ligação. Quando estudava, por exemplo, como certos princípios de mercado passaram a influenciar a posição das pessoas na sociedade, procurei passagens das entrevistas que indicassem como essa influência afeta as pessoas na universidade.
Muitos fragmentos de texto surgiram desta forma e comecei a fazer ligações também entre eles. Percebi, assim, as suas aproximações, o que me permitiu gerar três eixos principais para a apresentação e discussão dos dados. Encontrada esta estrutura, pude trazer para o texto outros trechos que havia considerado marcantes nas entrevistas realizadas.
Para mostrar os relatos e posicionamentos assumidos pelos professores diante da diferença posta pela presença de alunos com deficiência na universidade, busquei confrontar falas que estavam relacionadas entre si. Em alguns casos, trechos de uma entrevista respondiam diretamente à idéia de um outro professor, que era evocada em outra entrevista.
Ao apresentar as falas dos professores neste trabalho, elas podem não representar fielmente a forma como foram enunciadas, uma vez que várias partes que tratam do assunto em foco podem estar espalhadas em diversos pontos de uma entrevista. Assim, estas poderão ser combinadas em um mesmo trecho, até mesmo em ordem diferente da que surgiram durante a conversa. Tais descontinuidades serão indicadas por três pontos entre parênteses - (...). Alguns fragmentos inseridos nas falas fazem a costura entre os trechos combinados em uma parte, ou servem para contextualizar as citações, resumindo o que se conversou anteriormente, introduzindo indícios da pergunta que gerou tal raciocínio ou complementando a frase para que ela se torne compreensível fora do contexto da entrevista. Os trechos que correspondem às falas dos professores aparecerão sempre entre aspas, distinguindo-se dos fragmentos eventualmente inseridos. Na forma eletrônica, as falas também serão representadas com colorido diferente do restante do texto.
Ao aproximar trechos de entrevistas, por similaridade ou contraste, surgiram temas para discussão, o que corresponde a uma categoria para a organização dos dados. Porém, com a escrita hipertextual, essas categorizações não se fecham em si mesmas, não havendo limites bem definidos entre as partes, que estão entrelaçadas por múltiplas conexões.
Desta forma, o hipertexto me ajudou a lidar com a complexidade do tema de estudo, ao mesmo tempo em que serviu de instrumento para representar a sua trama. Problemas híbridos e complexos como os que dizem respeito à educação, exigem a articulação de saberes de vários campos de estudo, estabelecendo ligações entre seus respectivos universos cognitivos, com técnicas e sistemas teóricos próprios, construídos dentro de suas fronteiras disciplinares. Cada disciplina tem sua própria forma de ver a realidade e, como lembra Boaventura Santos (2003) "cada método é uma linguagem e a realidade responde na língua em que é perguntada" (p. 77). Assim, um campo pode fazer-se ouvir onde o outro silencia. Os dados, então, foram entrelaçados por autores de diferentes áreas de conhecimento - como a história, a educação, a sociologia, a filosofia do direito e da política -, para extrair deles maior riqueza de significados.
A novidade do conhecimento produzido nesta tese deverá surgir dessa rede de relações tecidas com as diferentes partes do texto, reconhecendo que estas relações resultam em uma visão particular do objeto de estudo, tendo em vista que o produto do conhecimento nunca está separado das ações utilizadas para obtê-lo e, portanto, do sujeito que conhece.