"Todas as sociedades produzem estranhos. Mas cada espécie de sociedade produz sua própria espécie de estranhos e os produz de sua própria maneira, inimitável", escreveu Bauman (1998, p. 27). Este texto remeteu-me ao filme Um estranho no ninho(11), que acabou inspirando o título desta tese, pela metáfora e as idéias que dela brotam.
O filme ilustra como a sociedade moderna reagiu aos estranhos que ela mesma produziu. De certa forma, seus estranhos são mantidos no ninho, mas sob custódia, em um lugar separado, onde se pode ter controle sobre eles e acumular conhecimento acerca deles, para conformá-los segundo os seus interesses, ou ainda, para normalizá-los, de modo que eles não sejam um incômodo à ordem estabelecida.
O enredo do filme gira em torno do conflito entre Randle McMurphy, que se passa por doente mental para escapar à prisão, e Mildred Ratched, enfermeira da instituição psiquiátrica para onde McMurphy é enviado. Ele não tinha nenhuma perturbação mental e as autoridades médicas sabiam disso. Mas acharam que lhe faria bem passar algum tempo naquela instituição para "curar-se" de seu comportamento inadequado e seguir o exemplo de seus submissos colegas. Ao contrário do que esperavam, McMurphy insistiu em despertar seus companheiros para que reassumissem as rédeas de suas vidas, voltassem a considerar seus desejos e a buscar a alegria e o prazer que haviam deixado de lado. Por isso, ele é submetido a uma lobotomia, graças à influência da enfermeira Ratched, que não suportava ver a ordem que mantinha ser ameaçada.
A história é ambientada nos fins dos anos 50, época dos primeiros movimentos da chamada contracultura, que ganharam sua plena força na década seguinte. Esses movimentos, que bem podem ser representados por McMurphy, se opunham à cultura repressora de sua época, cujos traços estão encarnados em Ratched. Nesta época também emergiram os movimentos que lutariam para que as pessoas com deficiência pudessem exercer sua plena cidadania.
Ao longo da história as pessoas com deficiência estiveram muitas vezes e de diferentes maneiras entre aqueles grupos tratados como estranhos ao ninho. Houve ocasiões em que eram vistas como uma ameaça tal, que eram lançadas para fora dele, cujos exemplos mais contundentes parecem se concentrar em antigas culturas, como em alguns grupos pré-históricos, na cultura hindu, na greco-romana e em alguns momentos da Idade Média. Ainda hoje, talvez elas sejam consideradas estranhas ao ninho em alguns grupos específicos, onde sua participação é vista como uma impossibilidade ou uma ameaça.
Em outros momentos da história, as pessoas com deficiência não eram banidas ou mortas. Permaneciam no seio da sociedade, mas ainda como estranhas no ninho. Várias situações espalhadas no tempo podem se encaixar nesta descrição, como na cultura judaica ou no asilo da igreja medieval, mas são encontradas principalmente na era que convencionamos chamar de Modernidade.
Mais recentemente, o crescimento dos movimentos pelos direitos individuais chegou ao patamar de engajamento na luta por um lugar no ninho para as pessoas com deficiência, em que elas possam participar da sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas.
Esta parte do estudo tem o seu foco sobre os direitos das pessoas com deficiência e como estes se materializaram nas práticas sociais através da história. Muitas vezes, porém, não seria possível isolar a evolução desses direitos da de outros grupos sociais. A conquista dos direitos de cada um desses grupos dependia de avanços comuns, como os da concepção de Homem, de igualdade entre os seres humanos, de justiça e de outros fatores sociais e culturais.
Na verdade, as vitórias alcançadas pelas pessoas com deficiência, muitas vezes, foram obtidas a reboque das conquistas de outros grupos sociais. Até hoje, a marginalização delas continua sendo a que ocupa menos espaço ou que é mais invisível na agenda do debate social, embora a opressão a que foram submetidas se baseie em uma diferença localizada no corpo tal como a diferença racial ou sexual.
A razão para isto pode estar na maior dificuldade de desnaturalizar a desigualdade atribuída à pessoa com deficiência, porque está fundada em uma idéia de sofrimento, privação e incapacidade, que as aprisiona em uma narrativa de tragédia pessoal (OLIVER, 1990) de que nossa cultura está impregnada. Martins (2005) esclarece que o infortúnio associado à pessoas com deficiência está mais fortemente ligado à experiência subjetiva do corpo do que nos outros casos, nos quais se apreendem mais facilmente os componentes culturais envolvidos na relação de opressão. Trata-se do que este autor chama de angústia da transgressão corporal, um sentimento de vulnerabilidade decorrente de um corpo que nos falha e transgride as nossas referências de existência.
(11) O filme foi dirigido pelo tcheco Czech Milos Forman, famoso por seus filmes com personagens desviantes, como Mozart (Amadeus, 1984) e Andy Kaufman (O mundo de Andy, 1999). Estrelado por Jack Nicholson e Louise Fletcher, foi laureado, em 1975, com os cinco principais prêmios do Oscar (filme, diretor, roteiro, ator e atriz). Foi baseado na novela One Flew Over the Cuckoo's Nest, escrita por Ken Kesey em 1964, tendo por base suas experiências quando trabalhou no centro psiquiátrico Agnew, na Califórnia, quando percebeu que as pessoas internadas ali não eram realmente insanas, apenas eram mais difíceis de serem conformadas às normas sociais consideradas aceitáveis. (retornar ao texto)