Quando os professores que têm uma posição passiva diante da deficiência, graças à concepção naturalizada de que partilham, têm dificuldade de pensar em procedimentos diferenciados que sirvam para dar aos alunos diferentes condições de uma boa aprendizagem. As coisas estarão bem se o estudante tem meios para se encaixar nas normas já existentes.
O surdo, "em princípio, não teria" uma maior dificuldade. "Ele poderia ter problema em caso de disparar a sirene, porque ele não ia ouvir. Mas, como ninguém deve ficar" sozinho no laboratório, "então, não seria um maior problema".
Neste caso, se fosse um procedimento comum, para a maioria dos químicos, ficar sozinho no laboratório e não fosse seguro para pessoa com deficiência auditiva, então isto se transformaria em um problema. Não ocorreu ao professor que um alarme poderia ter também um sinal visual além do sonoro. Não encontramos, neste tipo de afirmativa, disponibilidade para algum tipo de adequação.
Bobbio (2002) acredita que uma razão para a persistência do preconceito, pode estar no fato de ser uma crença que corresponde aos desejos, mobiliza as paixões ou serve aos interesses da pessoa que o carrega. Havendo esta razão prática para o preconceito, existe também uma predisposição para acreditar na opinião que transmite. Justamente essa predisposição ou prevenção relacionada ao preconceito, segundo o autor, o torna um tipo de opinião errônea de difícil correção.
Assim, problemas que desestabilizem os modos de fazer cotidianos, impliquem em trabalho adicional que não possa ser contabilizado a favor do professor, demandem a construção de uma nova prática docente, gastos adicionais ou mesmo o trabalho de pensar em como adequar um laboratório às necessidades do aluno com deficiência, podem levar à manutenção de idéias preconceituosas e conseqüentes atitudes discriminatórias.
Em um ensaio sobre o estigma, Erving Goffman (1978), explica certas relações do preconceito com a sociedade. Assim como determinadas rotinas e hábitos que adquirimos nos ajudam a fazer coisas sem muita atenção, economizando esforço e tempo, as relações sociais também envolvem a aprendizagem de rotinas em cada ambiente, que nos permite saber como agir frente a outras pessoas sem muita reflexão.
Para isso, a sociedade desenvolve meios de categorizar as pessoas, definindo os atributos considerados comuns e naturais para os membros que pertencem a cada categoria, o que também determina aqueles que lhe são estranhos. Cada ambiente estabelece as categorias de pessoas possíveis de serem nele encontradas. Essas pré-concepções são transformadas em exigências, em expectativas normativas.
Assim, na universidade, as pessoas também têm uma expectativa do tipo de aluno que vão encontrar. Elaine, estudante negra e pobre, que sofreu uma lesão cerebral enquanto fazia o curso, contou em um livro (SILVA, 2006) inúmeras situações, dentro e fora da universidade, em que ela se deu conta de que contrariava a expectativa corrente para uma estudante de Medicina da Unicamp, por causa de sua origem e de sua cor de pele. De um encontro de estudantes de Medicina, ela conta:
Vários alunos, de várias faculdades ao longo do país, pensaram que eu fosse uma das faxineiras do prédio. (...) Quase caíam de susto ao saber que eu era aluna de Medicina. E ainda cursava Unicamp - um dos vestibulares mais concorridos do país. Alguns acreditavam (...) Outros se calavam, talvez duvidando. Houve, entretanto, quem me destratou mais ao saber quem eu era (p.139).
Elaine contrariava as expectativas sobre o tipo de pessoa que devia pertencer à categoria de alunos de medicina da Unicamp. A mesma coisa pode acontecer em relação ao aluno com deficiência, provocando uma reação de estranheza diante de uma presença que nunca dantes fizera parte dessa comunidade:
"O caso mais marcante (...) foi um aluno com visão subnormal, que passou pelos nossos cursos sem nenhuma dificuldade maior. (...) Eu só me lembro do caso de um relacionamento com um professor (...) A primeira vez que ele teve contato com esse aluno foi um negócio bem chocante, sabe, assim tipo: o que você está fazendo aqui? Mas depois que isso foi esclarecido, aí o relacionamento foi legal. Mas o primeiro contato foi grave."
A razão para o choque está nesta delimitação de fronteiras que atribui os lugares sociais a cada grupo e, na universidade, pelo menos em alguns segmentos, ainda "se tem a idéia que isso aí" - a presença de alunos com deficiência - "não faz parte dessa" escola.
Frente a uma pessoa que ainda não conhecemos, podemos nos basear em uma série de aspectos e sinais que funcionam como pistas para prever a categoria a que pertence, a sua "identidade social". À identidade que imputamos a um indivíduo, com base em uma categoria pré-determinada e os aspectos potenciais que a ela se ligam, Goffman (1978) chama de identidade social virtual. A categoria e os atributos que a pessoa na realidade prova possuir compõem, então, a sua identidade social real.
Quando se evidencia em um indivíduo, que deveria encaixar-se em uma categoria, um traço que o diferencia dos outros que nela estão incluídos, este aspecto pode ser considerado indesejável e a pessoa deixa de ser considerada um pessoa comum, normal, total. Tal característica é um estigma e constitui uma discrepância entre a identidade social virtual e a identidade social real.
A palavra estigma foi criada pelos gregos para sinais corporais, feitos com cortes ou fogo, que evidenciavam algo de extraordinário ou mau sobre o status moral de quem os carregava. Atualmente aplica-se a diversos tipos de atributos depreciativos, que podem ser referentes ao corpo e seu funcionamento (deformidades, deficiências), ligados a culpas de caráter individual (prisão, homossexualidade, alcoolismo, radicalismo político, desemprego, analfabetismo, vícios) e do tipo tribal (raça, nação, religião) (GOFFMAN, 1978).
O estigma, traço diferente do que estava previsto para as pessoas de determinado ambiente ou situação, impõe-se à atenção de tal forma que acaba desviando a possibilidade de prestar atenção a outros atributos do indivíduo que o apresenta (GOFFMAN, 1978).
Um exemplo ilustrativo de como funcionam as categorias sociais e o estigma, também extraído de um ambiente universitário, é a experiência que viveu Fernando Braga da Costa, durante seu estudo de Mestrado em Psicologia sobre pessoas que trabalham em atividades desprestigiadas, consideradas subalternas: Garis - um estudo de psicologia sobre invisibilidade pública. Para desenvolver seu estudo, ele assumiu a atividade de gari dentro da USP, onde estudava. O uniforme de gari tinha um efeito surpreendente: quando o vestia, as pessoas que o conheciam não o enxergavam. Em seu cotidiano de estudante, ao passar por outras pessoas, mesmo que não fossem conhecidas, os olhares se cruzavam, e um cumprimento leve com a cabeça era comum. Fernando constatou que, com os garis, isto não tem chance de acontecer. Simplesmente nunca se olha para eles. Professores de Fernando, que o reconheciam e cumprimentavam mesmo fora da universidade, literalmente esbarravam nele pelas ruas da USP, quando estava com o uniforme de gari, e passavam direto, sem "vê-lo". Mesmo se ele parasse o que estava fazendo e fixasse o olhar em um conhecido que passava, não era percebido. Um dia, entrou com o uniforme vermelho de gari no prédio do Instituto de Psicologia e o atravessou inteiramente para pegar dinheiro em seu armário, sendo ignorado pelos seus próprios colegas, entre os quais era muito popular.
O uniforme neste caso funcionava como um estigma, já que é sinal de uma condição social e função das mais indesejáveis, associada ao lixo, à sujeira. As pessoas dentro destes uniformes ficam reduzidas à sua função desprestigiada ou mesmo identificadas com o seu objeto de trabalho. Não haveria porque prestar atenção nelas, mesmo que estejam em lugar inusitado, atravessando o interior do Instituto de Psicologia da USP. O que é interessante ressaltar aqui é como a percepção dos colegas e professores de Fernando foi alterada, diante da marca que o uniforme representa.
Por outro lado, os garis com quem Fernando trabalhava não foram enganados pelo uniforme. Demonstraram grande sensibilidade para os aspectos definidores da categoria de origem de Fernando, pois mostraram saber, desde o primeiro dia, que o estudante não pertencia à mesma classe que eles e o tratavam de modo diferente. Tentaram protegê-lo, poupá-lo do trabalho mais pesado e, no início, só falavam com ele para passar instruções. Apesar de Fernando vestir o mesmo uniforme, a forma como usava a mesma roupa, a sua expressão corporal, o andar, o olhar, o jeito de falar denunciavam que pertencia a uma outra classe social. Os garis imaginaram que era um estudante cumprindo um castigo ou até um fiscal espião, mas jamais um gari como eles(23).
As pessoas com deficiência, muitas vezes, parecem vestir um uniforme vermelho, que lhes confere uma identidade virtual que as reduz à categoria dos incapacitados, sem meios para enfrentar as exigências da vida acadêmica ou do mundo do trabalho. Sem levar em conta outros atributos que elas possam ter, podem sofrer discriminações e terem reduzidas as suas oportunidades de vida.
Norbert Elias (2000) chama a atenção para a insuficiência das análises que atribuem o problema da estigmatização e exclusão social somente a razões individuais, ao que normalmente se conceitua como preconceito. Para ele, o fenômeno não pode ser inteiramente entendido sem que seja considerado também no nível dos grupos.
Em seu livro Os Estabelecidos e os Outsiders, Elias procurou esclarecer processos sociais que se desenvolvem em todas as sociedades humanas, mostrando como certos grupos monopolizam as oportunidades de poder e as usam de modo a marginalizar outros grupos.
Publicado pela primeira vez em 1965, esse livro foi escrito com base em um estudo realizado pelo professor John Scotson, em uma comunidade próxima a Leicester, na Inglaterra, a que deram o nome fictício de Winston Parva. Em uma introdução escrita dez anos depois, Elias explicou que era possível aplicar sua teoria a uma série de relações em que a desigualdade se manifesta: entre classes sociais, grupos étnicos, colonizadores e colonizados, homens e mulheres, gerações, homossexuais e heterossexuais.
Para Elias (2000), uma das razões para a produtividade desta pesquisa é que a comunidade estudada evidenciava a limitação das teorias que explicam as diferenças de poder somente em função da posse de bens materiais, como armas ou meios de produção, deixando de lado aspectos relacionados ao grau de organização dos indivíduos envolvidos. Em Winston Parva, esta fonte de diferencial de poder podia ser observada de forma praticamente pura, sem outras diferenças marcantes como a de classe social ou de cor, que costumam obscurecer a importância do aspecto organizacional. Especialmente o grau de coesão interna e de controle comunitário era decisivo na relação entre os dois grupos da comunidade observada, determinando a superioridade de forças do grupo estabelecido. À medida que o estudo ia sendo realizado, aquela comunidade revelou-se um laboratório sociológico, onde se desvelavam as propriedades gerais das relações de poder, em um nível microscópico, o que seria útil para a construção de um modelo explicativo que poderia ser ampliado e revisto em figurações mais complexas.
Elias constrói seus argumentos em torno da dupla conceitual: os estabelecidos e os outsiders - established e outsiders no original em inglês. Established e establishment, explica Neiburg (2000), são palavras inglesas usadas para designar grupos que ocupam posições de prestígio e poder, que se vêem e são reconhecidos como a "boa sociedade", melhor que outras, cultivando sua identidade social a partir da tradição, autoridade e influência. É a identidade de um grupo definido como um coletivo por um substantivo no singular: establishment. Os outsiders são os que estão fora da "boa sociedade", formando um coletivo heterogêneo e difuso de pessoas, cujos laços sociais são menos intensos do que os que unem os established. Por isso, na língua inglesa, aqueles existem no plural, não constituindo um grupo social, coeso, como estes. A desigualdade que se estabelece entre as duas categorias é resultado das relações de poder entre ambos os grupos, em que estão presentes pertencimento e exclusão, autopercepção e reconhecimento, superioridade ou inferioridade moral e social.
A comunidade industrial onde se deu o estudo tinha um bairro central mais antigo e, à sua volta, duas povoações mais recentes de trabalhadores. Estes dois grupos eram bastante semelhantes em todos os indicadores sociológicos como renda, educação ou tipo de ocupação, pertencendo também à mesma etnia, raça, nacionalidade e religião. A única diferença entre eles era que um deles habitava o lugar há muito mais tempo que o segundo. Por isso, o grupo mais antigo tinha-se como o establishment local e assim era reconhecido por toda a cidade, deixando ao grupo mais recente a posição de outsiders, de marginais.
O estigma que o grupo dos outsiders carregava não tinha relação com as qualidades individuais de cada um de seus membros, mas com o fato de ser parte de um grupo que não partilha do mesmo estilo de vida do grupo estabelecido. Os estabelecidos, que já conviviam há bastante tempo, haviam construído para si um estilo de vida comum e um conjunto de normas, do qual se orgulhavam e lhes davam o sentimento de status pessoal e inclusão na comunidade. Os outsiders eram vistos como uma ameaça a essa tradição comunitária e o contato não-profissional com eles era rigidamente evitado, como se houvesse risco de contaminação.
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Retirado de algumas reportagens disponíveis na Internet:
LANA CRISTINA/ABr. Psicólogo da USP estuda as pessoas invisíveis. Disponível em: http://www.radiobras.gov.br. Acesso em: 19 out. 2006.
AMARAL, Sofia. Olhe bem, aproveite, porque eles são invisíveis. Disponível em: http://carosamigos.terra.com.br. Acesso em: 19 out. 2006.
DELPHINO, Plínio. Invisibilidade Pública. Disponível em: http://ouvidoria.petrobras.com.br. Acesso em: 19 out. 2006. (retornar ao texto)